O caso do cão Fantasma, retirado da casa do tutor depois que um vídeo mostrou o homem atingindo o animal durante um passeio em Balneário Camboriú, ganhou uma análise do adestrador Antony Camejo, que publicou vídeos discutindo não apenas a agressão registrada, mas também as consequências da retirada do cachorro do ambiente em que vivia.
Camejo deixa claro que não concorda com a atitude do tutor e considera errado bater em um cachorro. A avaliação apresentada por ele, porém, procura ampliar a discussão para aquilo que acontece depois da intervenção: quais eram as condições de vida do animal, qual rotina ele possuía e para qual ambiente será levado.
Ao explicar em que circunstâncias entenderia como evidente a necessidade de retirar um animal do local onde vive, o adestrador citou situações de abandono e precariedade. “Eu também não concordo. E sabe o que eu concordaria? Se fosse a situação de ver o cachorro em estado crítico”, afirmou.
Camejo exemplificou com um cachorro vivendo em uma casa tomada por fezes, sem água, sem comida, dormindo em condições precárias ou submetido a um ambiente completamente inadequado. No episódio de Fantasma, entretanto, disse interpretar a agressão registrada como uma reação impulsiva do tutor diante de uma situação de frustração.
“Eu vejo que foi uma reação ali, no impulso. Se frustrou com o cachorro e, sei lá, começou a bater no cachorro. Eu não compactuo com isso”, afirmou.
O vídeo que originou a ocorrência efetivamente mostra o homem atingindo Fantasma, e o próprio tutor posteriormente admitiu que perdeu o controle e bateu no cachorro. Ele sustentou que nunca havia agredido o animal anteriormente. Até então, não havia sido apresentado publicamente histórico anterior de agressões nem avaliação veterinária apontando lesões ou sinais de violência recorrente.
“Desliguem um pouco o emocional”
Camejo também pediu que as pessoas tentem analisar o episódio sem limitar a discussão à reação emocional provocada pelas imagens. “Desliguem um pouco o emocional”, disse, ao mencionar as abordagens agressivas que passaram a surgir em torno do caso.
O adestrador argumenta que existem outras formas de comprometer o bem-estar de um cachorro que não produzem imagens tão impactantes quanto uma agressão física. Entre elas, citou tutores que demonstram carinho e afeto, mas deixam de atender necessidades comportamentais dos animais.
“Tem muitas pessoas que têm cães e estão envenenando seus cães aos poucos com muito amor, com muito carinho, e não estão respeitando as necessidades do seu cão”, afirmou.
Camejo mencionou a necessidade de passear, farejar, forragear, brincar, explorar diferentes ambientes e promover gasto de energia física e cognitiva. Segundo ele, ignorar continuamente essas necessidades também pode representar uma forma de maus-tratos.
“Eu olho para isso também como maus-tratos, só que é um maus-tratos em formato de amor”, declarou.
Para o adestrador, situações diferentes podem revelar um mesmo problema: pessoas que possuem cães sem compreender plenamente suas necessidades. Por isso, defende orientação tanto para quem reage de maneira inadequada ao comportamento do animal quanto para quem exagera na humanização e deixa de proporcionar uma rotina compatível com as necessidades do cachorro.
“Dito isto, mostra que as pessoas não estão preparadas para ter cachorro. As pessoas precisam de orientação. Caso desse cara e caso da pessoa que humaniza de maneira exagerada”, afirmou.
Comportamento de Fantasma chamou atenção
Ao analisar as imagens divulgadas depois da ocorrência, Camejo chamou atenção também para a forma como Fantasma se comportava diante dos agentes. Na avaliação do profissional, o cachorro aparecia amistoso, aproximava-se das pessoas, movimentava o rabo e demonstrava disposição para interação.
Ele também observou a aparência do animal, destacando a pelagem limpa e aquilo que interpretou, pelas imagens, como aspecto de um cachorro que recebia cuidados. Esses elementos, para Camejo, deveriam integrar a avaliação sobre a situação do cão juntamente com a agressão registrada.
A mãe do tutor afirmou que Fantasma vivia com a família desde aproximadamente os 40 dias de vida, recebia alimentação e cuidados e possuía espaço próprio. O próprio homem disse que levava o cachorro para caminhar diariamente e demonstrou preocupação com a possibilidade de perder definitivamente a guarda do animal.
Preocupação com o destino do cachorro
Depois da ocorrência, Fantasma foi recolhido pelo Departamento de Proteção Animal e Combate aos Maus-Tratos (Depa) e encaminhado para uma organização parceira do município.
É principalmente sobre essa mudança que Camejo concentra sua preocupação. Segundo ele, retirar um cachorro de um ambiente conhecido e alterar completamente sua rotina pode provocar consequências comportamentais que também precisam ser consideradas.
O adestrador cita fatores como redução do espaço, contato com muitos outros cães, mudanças na frequência dos passeios, disputa por recursos e alteração da rotina. Para ele, o simples encaminhamento para uma organização ou lar temporário não significa automaticamente uma condição melhor para o animal.
“Eu não quero que o cachorro vá para uma ONG. Eu não quero que o cachorro vá para um espaço delimitado ali, onde ele fica com cortisol, alto nível de estresse, muito agito. Não. Isso eu não almejo”, afirmou Camejo.
O adestrador foi ainda mais contundente ao criticar as condições existentes em algumas instituições de acolhimento. “Tem preso que tem melhor vida do que muitos cães em ONG. Essa é a realidade. Falei e não tenho medo de falar”, declarou.
Para ele, comportamento canino é resultado de diferentes fatores, entre eles genética, ambiente, manejo, rotina e experiências. Uma mudança brusca dessas condições pode, portanto, alterar também o comportamento do cachorro.
“Eu só quero que o cachorro tenha o melhor”
Nos vídeos, Camejo também afirma que sua manifestação não pretende transformar o caso em uma disputa entre quem está do lado do tutor e quem está do lado do cachorro.
“Eu só quero que o cachorro tenha o melhor. Eu só quero que a mãe daquele cara tenha o melhor e eu só quero que esse cara tenha o melhor”, afirmou.
O adestrador também mencionou a situação de saúde do tutor. Segundo Camejo, a mãe do homem teria relatado que ele enfrenta um câncer. “Que ele se cure desse câncer, essas coisas que a mãe dele relatou ali que ele está passando, e que dê tudo certo. Eu quero que eles vivam bem”, declarou.
No dia da ocorrência, o próprio tutor havia afirmado que estava enfrentando um momento delicado relacionado à saúde e que se encontrava emocionalmente abalado naquela manhã.
A agressão registrada permanece como o fato que desencadeou a atuação das autoridades. Camejo não nega o episódio nem defende a conduta do tutor. Sua manifestação concentra-se na avaliação do que será feito com Fantasma depois da retirada e na necessidade de considerar o bem-estar do cachorro também nas decisões tomadas a partir de agora.

