A Prefeitura de Camboriú apresentou, nesta segunda (1º), a nova identidade visual da gestão. O sistema gráfico — desenvolvido pela Agência Ômega com a Assessoria de Comunicação — traz como núcleo cromático verde-limão, azul-marinho e amarelo, além de laranjas e tons terrosos. O governo sustenta que a paleta “foi cuidadosamente desenvolvida a partir do brasão”, dialogando com elementos naturais do município e com referências simbólicas como o azul anil citado no hino.
A adoção das cores, porém, não reproduz a paleta oficial da bandeira (verde, branco e laranja) e se aproxima das cores institucionais do PSD — partido do prefeito Leonel Pavan e também da prefeita de Balneário Camboriú, Juliana Pavan. Nas imagens enviadas à reportagem (brasão circundado pela nova paleta, carro oficial plotado e logotipo do PSD), a coincidência visual é perceptível e tem repercutido entre comunicadores e observadores do tema.
O que está em jogo
No plano jurídico, a Constituição (art. 37, §1º) determina que a comunicação governamental tenha caráter educativo/informativo e não contenha símbolos que caracterizem promoção pessoal. Embora o uso de cores não seja, por si só, ilegal, o risco surge quando a identidade de governo passa a remeter, de forma reconhecível, à marca de um partido ou liderança, sobretudo em ano pré-eleitoral, podendo afrontar o princípio da impessoalidade e abrir margem a questionamentos em órgãos de controle.
O argumento da Prefeitura
No release, a gestão afirma que:
- a paleta deriva do brasão e dos “elementos rurais” (verdes e terrosos);
- o azul representaria “tranquilidade e responsabilidade”;
- o laranja comunicaria “energia e proximidade”.
A administração defende que a escolha “moderniza sem romper com a tradição” e que o projeto resultou de pesquisa e curadoria técnica.
Por que a crítica persiste
Do ponto de vista de design público, a origem técnica precisa ser demonstrável. Quando a paleta final não guarda correspondência direta com as cores oficiais do município (bandeira/brasão originais) e coincide com o espectro cromático do partido no poder, a leitura política torna-se provável e fragiliza a neutralidade da comunicação institucional.
Medidas que aumentariam a transparência
Para mitigar ruídos e riscos, especialistas costumam recomendar que a gestão publique:
- Manual de marca completo (com estudos cromáticos comparativos frente a símbolos oficiais e marcas partidárias).
- Relatório de motivação técnica da paleta (metodologia, referências, testes de percepção).
- Política de uso vedando aplicações que confundam identidade de governo com identidade partidária (especialmente em uniformes, fachadas e frota).
- Dados de contratação (escopo, valores e critérios) e compromisso de revisão caso órgãos de controle apontem inconsistências.
Contexto regional
A vizinha Balneário Camboriú — governada por Juliana Pavan (PSD) — também adotou comunicação com predominância de azul, verde e amarelo em peças recentes, o que reforça o debate sobre partidarização estética na gestão pública municipal.
Em síntese: Camboriú tem o direito de atualizar sua identidade; o ponto sensível é provar, com documentos e critérios objetivos, que a escolha cromática não é um atalho para colar a marca da cidade à marca do partido. Sem isso, a inovação estética corre o risco de ser lida como marketing político com recursos públicos — e de enfrentar contestações sob o princípio da impessoalidade.

