Um caso de extrema crueldade contra um animal comunitário foi registrado em Balneário Camboriú neste fim de semana. O cão conhecido como Maninho, que vivia com a irmã Maninha na região do Estaleiro, foi encontrado ferido neste sábado (30), após desaparecer durante a madrugada. Segundo relatos divulgados por protetores, ele foi esfaqueado e localizado às margens da BR-101, nas proximidades do Posto Apolo, coberto de lama, machucado e com dificuldades para caminhar.
O caso não começou no sábado. Os dois cães já vinham sendo acompanhados por protetores justamente porque, segundo relatos públicos, estavam sob risco. Em janeiro deste ano, a diretora do Departamento de Proteção Animal, Patrícia Ferreira, já havia publicado um vídeo pedindo ajuda para encontrar um lar para os irmãos. Na ocasião, ela relacionou a preocupação ao caso do cão Orelha, da Praia Brava, e afirmou que não queria ver uma nova história semelhante acontecer em Balneário Camboriú. “Nós temos aqui em Balneário uma situação acontecendo com os nossos dois animais comunitários. Por isso a gente vem hoje iniciar uma campanha tentando uma adoção pra esses irmãos”, disse Patrícia no vídeo. Ela explicou que Maninho e Maninha viviam há cerca de três anos na região, eram acompanhados por moradores e recebiam cuidados, mas vinham sendo motivo de incômodo para algumas pessoas. “Eles acompanham as pessoas, são cuidados por diversas pessoas, são amados, mas o melhor pra eles hoje seria um lar”, afirmou.
Mesmo com os alertas, os animais permaneceram no território onde eram conhecidos pela comunidade. Para tentar aumentar a segurança, foram colocadas tags com rastreador nos cães. A medida, segundo os relatos divulgados depois do ataque, foi essencial para localizar os animais após o desaparecimento. A movimentação dos rastreadores indicou que os dois saíram da região onde viviam por volta da meia-noite e foram parar em local distante, na região do bairro São Judas.
No sábado, a protetora Tiffany, da ONG Viva Bicho, publicou um vídeo relatando a gravidade do caso e pedindo ajuda para identificar o responsável. “Eu nem sei como começar esse vídeo, mas as imagens são cruéis demais e a gente precisa de ajuda. Nós precisamos identificar quem fez isso com esses animais comunitários aqui de Balneário Camboriú”, afirmou. Ela explicou que Maninho e Maninha eram cães comunitários do Estaleiro e que os animais haviam sido localizados pelo GPS durante a madrugada. “Um dos cães comunitários do Estaleiro foi esfaqueado, ferido, machucado, vítima de uma crueldade que nenhuma vida merece sofrer”, relatou.
A situação da Maninha também gerou preocupação. Segundo Tiffany, os dois desapareceram juntos, mas apenas Maninho havia sido encontrado ferido naquele momento. “O pior é que ele não estava sozinho. A Maninha desapareceu junto com ele e nesse momento a gente não sabe onde ela está, se ela está ferida, se ela está escondida, se ela está sofrendo, se ela está esperando por ajuda”, disse. Posteriormente, a cadela foi localizada na Praia do Estaleiro, sem necessidade de atendimento veterinário.
Maninho foi resgatado e encaminhado para atendimento pela ONG Viva Bicho. O caso gerou forte reação entre protetores porque, segundo eles, o problema não está na existência de cães comunitários protegidos por lei, mas na violência praticada contra animais em situação de vulnerabilidade. “O problema não é o cão comunitário. O problema não é esses animais serem protegidos por lei e estarem na rua. O problema é quem agride, quem abandona, quem maltrata e a impunidade que acontece com esses malfeitores”, afirmou Tiffany no vídeo divulgado pela ONG.
No domingo (31), Patrícia Ferreira voltou a se manifestar e disse que precisou esperar a situação esfriar para falar sobre o caso. Segundo ela, os cães haviam sido ameaçados na quarta-feira anterior ao desaparecimento. “Esses animais na quarta-feira foram ameaçados por uma pessoa e na sexta, na madrugada pra sábado, eles foram vistos em um local muito distante de onde vivem”, afirmou. Patrícia classificou o ataque contra Maninho como uma atitude de extrema crueldade. “O que aconteceu com o Maninho foi de uma atitude tão cruel que não dá pra acreditar que um ser humano é capaz disso”, declarou.
A diretora do Depa afirmou ainda que o caso será tratado com rigor. “Nós vamos trabalhar com todas as forças e essa pessoa vai pagar por isso. Esse crime não vai ficar assim. E o Maninho, com toda sorte, com todo amor que a gente tem por ele, a gente vai conseguir colocar ele em pé e fazer ele ficar bem. Já o agressor, que o preço seja muito caro”, disse Patrícia.
O protetor Vini, embaixador estadual do movimento Cadeia para Maus-Tratos, também acompanhou a situação e divulgou vídeo cobrando responsabilização. Ele reforçou que os animais já vinham sendo ameaçados e que, por isso, usavam coleiras com GPS. “Eles sumiram, os dois cães comunitários que viviam aqui na praia do Estaleirinho, em Balneário Camboriú. Esses animais já estavam sendo ameaçados. Por conta disso, a proteção animal instalou neles uma coleira com GPS”, afirmou. Segundo ele, o relatório do rastreador indicou que os animais saíram da praia por volta da meia-noite.
Vini também destacou a necessidade de dar publicidade ao caso para evitar impunidade. “Pra que isso? Pra que essa crueldade com seres tão inocentes? Mas aqui fica o recado: nós vamos te encontrar, seu covarde que maltratou os animais. Esse caso não vai ficar impune”, declarou.
A Prefeitura de Balneário Camboriú informou que, após o desaparecimento ser comunicado ao Departamento de Proteção Animal, a Guarda Municipal iniciou buscas por volta das 7h de sábado, com apoio de uma guarnição e de drone. O Maninho foi encontrado ferido às margens da BR-101 e encaminhado à ONG Viva Bicho. A Maninha foi localizada depois, na Praia do Estaleiro, sem ferimentos aparentes.
Os dois animais são cães comunitários reconhecidos pela comunidade do Estaleiro. Balneário Camboriú possui legislação específica sobre o tema. A Lei Municipal nº 4.436/2020 reconhece cães e gatos comunitários como animais que vivem em espaços públicos, mas recebem cuidados e proteção de moradores. A norma garante direitos como alimentação, água, abrigo e assistência, além de reconhecer esses animais como parte da convivência comunitária.
O caso dos Maninhos chama atenção porque os sinais de risco não eram desconhecidos. Segundo protetores e representantes da causa animal, havia preocupação com a segurança dos dois cães há meses. Relatos de ameaças, a tentativa de encontrar um lar definitivo para os animais e até a instalação de rastreadores por GPS demonstram que existia receio de que eles pudessem ser alvo de violência. Ainda assim, o pior acabou acontecendo.
Até o momento, não há confirmação pública sobre a identificação do agressor. Protetores pedem que qualquer pessoa com informações sobre o desaparecimento, deslocamento dos cães ou possível autor da agressão procure os órgãos competentes. O caso é tratado por defensores da causa animal como crime de maus-tratos e crueldade, com cobrança para que a apuração identifique o responsável e leve à responsabilização.

