Uma viagem planejada durante meses, com passagens pagas, roteiro definido e expectativa familiar, pode se transformar em desespero quando, às vésperas do embarque, o consumidor descobre que o bilhete não existe. É esse o tipo de situação relatado por clientes que afirmam ter sido prejudicados após contratar serviços de uma agência de viagens de Balneário Camboriú.
O caso envolve a agência Dannitur, ligada a Daniela Seelig, citada por consumidores em boletim de ocorrência, reclamações na plataforma Reclame Aqui e relatos encaminhados à reportagem. As denúncias mencionam passagens aéreas não emitidas, reservas inexistentes, supostos bilhetes falsos, ausência de reembolso e dificuldade de contato após os pagamentos.
Um dos casos foi registrado na Polícia Civil de Santa Catarina em 28 de maio de 2026 como estelionato consumado. O denunciante, que pediu para não ser identificado, afirma ter pago R$ 31.320,00 por passagens aéreas para Orlando, nos Estados Unidos, e ingressos para parques da Disney e da Universal. Segundo ele, a família só descobriu que as reservas não existiam quatro dias antes da data prevista para a viagem.
A viagem tinha um motivo especial. O grupo iria acompanhar a formatura do filho do denunciante, que cursou engenharia na Universidade Central da Flórida. Conforme o boletim de ocorrência, a compra envolvia cinco pessoas, incluindo duas idosas, de 77 e 73 anos, ambas com dificuldade de locomoção. Uma delas, segundo o relato, também fazia tratamento para depressão.
As tratativas começaram em 30 de janeiro de 2026. Após receber uma cotação, o denunciante afirma ter feito dois pagamentos por Pix, que somaram R$ 19.500,00, referentes às passagens aéreas. Depois de várias cobranças, ele teria recebido os supostos tickets em 24 de fevereiro. Mais tarde, segundo o registro policial, descobriu que os documentos não correspondiam a passagens válidas.
Em abril, a negociação continuou com a compra dos ingressos para os parques. O valor informado no boletim foi de R$ 11.820,00, pago também por Pix, em duas transferências: uma de R$ 5 mil e outra de R$ 6.820,00. Somados os valores das passagens e dos ingressos, o prejuízo direto informado à polícia chegou a R$ 31.320,00.
A descoberta ocorreu em 24 de abril. Desconfiado após sucessivas tentativas de obter os ingressos e diante de respostas que classificou como “desculpas diferentes”, o denunciante decidiu consultar diretamente a companhia aérea. Foi então que, segundo ele, constatou que não havia passagens aéreas nem ingressos válidos.
No relato feito à polícia, o morador afirma que a responsável pela venda teria confirmado que as passagens não existiam e orientado que ele comprasse outras. Ainda segundo o denunciante, depois disso ela não teria atendido ligações nem apresentado explicações. Para não perder a viagem de formatura, a família precisou comprar novas passagens de forma emergencial, ao custo de R$ 36.439,73, além de adquirir novamente os ingressos, por aproximadamente R$ 10 mil.
Ao procurar a reportagem, o morador disse que decidiu tornar o caso público para evitar que outras pessoas passem pela mesma situação. Ele afirmou ainda que, ao comparecer à delegacia, teria sido informado de que já haveria quase 50 ocorrências envolvendo a agência. A quantidade de registros é atribuída ao relato do denunciante e não consta, no material enviado, como dado oficialmente confirmado pela Polícia Civil.
“Penso que até para evitar que mais pessoas caiam no golpe, seria um serviço de utilidade pública uma matéria dando publicidade ao fato”, escreveu o denunciante à reportagem. Ele pediu que seu nome e suas informações pessoais fossem preservados.
Outros consumidores relatam situações semelhantes
Além do boletim de ocorrência, a reportagem recebeu relatos de outros consumidores que afirmam ter enfrentado problemas parecidos após comprar passagens com a mesma agência. As histórias têm pontos em comum: viagens planejadas com antecedência, atendimento inicialmente solícito, promessa de emissão dos bilhetes e descoberta do problema poucos dias antes do embarque.
A consumidora Georgia Varela relatou que havia planejado uma viagem para comemorar seus 30 anos. Segundo ela, a compra foi feita meses antes, mas, uma semana antes da data marcada, a família descobriu que o bilhete era falso.
“Aconteceu o mesmo com a gente! Compramos e planejamos minha viagem de 30 anos meses antes, uma semana antes da viagem descobrimos que nosso bilhete era falso e não tinha passagem nenhuma. Ou seja, precisamos comprar passagens de última hora porque era algo já planejado há meses”, relatou.
George Varela também afirma ter sido lesado. Segundo ele, a compra envolvia passagens para o exterior para quatro pessoas, em uma viagem marcada por uma data especial. A menos de uma semana do voo, de acordo com o relato, a família ainda não havia recebido bilhetes verdadeiros.
“Também fui lesado por essa golpista. E estou aguardando há meses uma solução. A mesma situação, compramos passagens para o exterior, quatro pessoas, motivo em data especial, e há menos de uma semana para o voo ainda não conseguíamos os bilhetes verdadeiros. Apenas recebemos bilhetes falsos e desculpas esfarrapadas”, afirmou.
A consumidora Paloma Busarello relatou ter comprado cinco passagens para o exterior com a agência. Segundo ela, a família já havia contratado o serviço anteriormente sem problemas, o que aumentou a confiança para uma nova compra. Desta vez, porém, as dificuldades teriam começado quando os consumidores passaram a cobrar os tickets.
“Também havíamos comprado cinco passagens para o exterior com essa ‘agência’. Mesma história dos demais passageiros, já havíamos comprado anteriormente sem problemas. No começo muito solícita e depois quando começamos a cobrar os tickets, uma enrolação sem fim, eram sempre desculpas diversas”, declarou.
Paloma afirma que, ao receber os supostos tickets, percebeu informações divergentes e decidiu confirmar os dados diretamente com a companhia aérea. Segundo ela, foi nesse momento que descobriu que os bilhetes eram falsos.
“Foi então que decidi ligar direto para a cia aérea para confirmar os dados e descobri que os tickets eram falsos”, relatou. A consumidora informou ainda que registrou boletim de ocorrência e que pretende dar andamento a um processo.
Outro relato foi feito por Alan Antunes, que afirma ter perdido R$ 12 mil. Ele diz que a família comprava passagens com a mesma pessoa desde 2005 e que precisou adquirir novos bilhetes para não ter os planos prejudicados.
“Essa ****** quase estragou meus planos, mas graças a Deus tive condições e comprei novas passagens, mas perdi com ela 12 mil. Eu e minha mãe compramos passagens com ela desde 2005”, afirmou.
Reclamações no Reclame Aqui citam prejuízos superiores a R$ 40 mil
A plataforma Reclame Aqui também reúne reclamações atribuídas à empresa. Os relatos mencionam passagens aéreas não emitidas, reservas que não constavam junto às companhias, supostos vouchers falsos, falta de reembolso e interrupção de contato após os pagamentos.
Em uma reclamação registrada em 12 de maio de 2026, uma consumidora de Aracruz, no Espírito Santo, afirma ter comprado passagens para uma viagem à França e relata prejuízo superior a R$ 40 mil. Segundo ela, após o pagamento, teria recebido apenas um recibo falso de reserva. A consumidora diz que tentou resolver a situação por seis meses, mas recebeu justificativas evasivas e passou a ser ignorada.
Há também uma reclamação de 30 de abril de 2026, feita por uma consumidora de Balneário Camboriú, que afirma ter comprado passagem aérea por intermédio da empresa e descoberto, um dia antes do voo, que a passagem não existia. No relato, ela diz que precisou comprar novo bilhete para conseguir embarcar e que o prejuízo passou de R$ 16 mil.
Outro consumidor de Balneário Camboriú relatou, em 24 de março de 2026, prejuízo estimado em R$ 19 mil. Ele afirma que comprava passagens com a mesma pessoa desde 2012, mas que, em 2025, passou a identificar problemas como bilhete não emitido, uso de cartões de crédito e inexistência de reservas junto às companhias aéreas.
Uma consumidora do Rio de Janeiro informou pagamento de R$ 3.300,00 por um pacote com aéreo e hospedagem para Fortaleza. Segundo o relato, a cliente fez cinco transferências por Pix, mas não recebeu comprovantes de reserva. Ao procurar diretamente o hotel, teria sido informada de que não havia reserva em seu nome.
Em março, uma consumidora de Guarulhos, em São Paulo, relatou a compra de um cruzeiro para quatro pessoas, com saída de Miami, além de ingressos para parques em Orlando. Segundo ela, a reserva do navio teria sido enviada, mas não paga, e os ingressos não teriam sido entregues. A cliente afirma que tentou contato por ligações, WhatsApp, e-mail e até por bilhete no endereço cadastrado, mas não obteve resposta.
Também há relatos de janeiro de 2026 sobre pacotes para a França no valor de R$ 8.350,00. Nesses casos, consumidores afirmam que o bilhete enviado não estava finalizado ou pago junto à companhia aérea. As reclamações citam tentativas de solução amigável, interrupção de contato e busca por medidas judiciais.
Outros registros mencionam prejuízos de R$ 7 mil, R$ 7.330,00, R$ 8 mil, R$ 12 mil, R$ 19 mil e mais de R$ 23 mil, envolvendo viagens para Portugal, Colômbia, Argentina, Chile, Londres, Porto Alegre, Flórida e França. Em diferentes reclamações, consumidores afirmam ter recebido códigos de reserva ou vouchers que, ao serem conferidos diretamente com companhias aéreas, não correspondiam a passagens efetivamente pagas ou emitidas.
Confiança antiga aparece em diferentes relatos
Um ponto recorrente nos relatos é que parte dos consumidores já havia comprado passagens com a mesma agência ou por meio da mesma representante em anos anteriores. Alguns afirmam que as primeiras experiências ocorreram sem problemas, o que teria reforçado a confiança para novas contratações.
Esse histórico aparece tanto nos relatos encaminhados à reportagem quanto nas reclamações registradas na plataforma. Consumidores dizem que conheciam a empresa, haviam recebido indicações ou já tinham utilizado os serviços antes. Segundo eles, os problemas passaram a surgir em compras recentes, especialmente no momento de receber bilhetes, comprovar reservas ou obter reembolso.
A reportagem procurou a agência de viagens pelo número de WhatsApp informado como canal de contato. A mensagem chegou ao destinatário, mas não foi respondida até o fechamento desta matéria. O espaço permanece aberto para manifestação da empresa e de Daniela Seelig.

