A madrugada de 2 de janeiro de 2025 marcou de forma definitiva a vida de Eduarda Kluge, então com 22 anos, vítima de uma tentativa de feminicídio registrada em Balneário Camboriú, no litoral de Santa Catarina. O crime ocorreu dentro da residência do agressor, no bairro Nações, após a jovem manifestar o desejo de encerrar um relacionamento que durava apenas dois meses.
Segundo relato da própria vítima, o agressor não aceitou o término e a trancou em um quarto onde mantinha diversas armas expostas. Ao ser questionada sobre como era o ambiente no momento do crime, Eduarda afirmou: “Ele tinha um arsenal de armas dentro do quarto, várias facas, que ficavam expostas em um expositor” .
A violência começou com golpes desferidos com uma barra de ferro, atingindo a cabeça e o ombro da vítima. Mesmo diante da gravidade das agressões, o ataque continuou. De acordo com o registro do caso, “visto que a mesma não tinha falecido, a esfaqueou na região do estômago e em suas mãos ao tentar deferir golpes em seu tórax” .
Após as agressões, o autor ainda tentou tirar a própria vida, causando cortes superficiais no peito, conforme consta na ocorrência policial.
Luta pela sobrevivência e marcas físicas do ataque
Durante o ataque, Eduarda reagiu na tentativa de proteger órgãos vitais. Ao ser questionada sobre como conseguiu evitar golpes fatais, relatou: “Eu segurei com as mãos, foi onde ele abriu minha mão, pois estava segurando na lâmina para não pegar no peito” .
A jovem sofreu múltiplos ferimentos, incluindo lesões no estômago e nas mãos, além de um forte impacto na cabeça. Ao todo, foram necessários 24 pontos para conter os ferimentos. Apesar da gravidade, ela não precisou passar por cirurgia.
O socorro veio por meio de vizinhos, que acionaram atendimento médico. Conforme a ocorrência policial, a vítima foi encaminhada à UPA das Nações, onde chegou lúcida e em estado estável, mesmo com intenso sangramento.
Prisão em flagrante e medo persistente
O agressor foi preso em flagrante no mesmo dia e permaneceu detido até o julgamento. Ainda assim, a sensação de segurança não foi imediata para a vítima.
Quando questionada se se sentiu segura após a prisão, Eduarda respondeu: “Não 100%, pois tinha medo dele sair, muita ansiedade e medo. Medo dele matar porque ele persegue” .
O impacto emocional do crime se mostrou duradouro. Ao descrever as consequências psicológicas da violência, afirmou: “Ele destruiu muita coisa em minha vida, inclusive o meu psicológico. Mas sou grata por estar viva”.
Julgamento e condenação a 32 anos de prisão
O caso foi levado ao Tribunal do Júri da comarca de Balneário Camboriú, onde o réu foi condenado a 32 anos de reclusão em regime inicial fechado por tentativa de feminicídio. A decisão reconheceu a materialidade do crime e a autoria, além da qualificadora que dificultou a defesa da vítima, que estava desarmada e confinada no momento do ataque .
A sentença também fixou indenização mínima de R$ 100 mil pelos danos causados. O início do cumprimento da pena foi determinado de forma imediata.
Durante o processo, ao ser questionada sobre suas expectativas em relação à sentença, Eduarda afirmou: “Tinha medo da sentença ser baixa, mas […] tive as esperanças de que o melhor iria se cumprir” .
Após a condenação, descreveu o sentimento como de alívio. “Felicidade por saber que a justiça está abrindo os olhos para esses casos” .
Da violência ao alerta: sobrevivente usa história para conscientizar
Mesmo em processo contínuo de recuperação psicológica, Eduarda passou a utilizar sua história como forma de conscientização. Em vídeo divulgado nas redes sociais, ela alerta outras mulheres sobre sinais iniciais de relacionamentos abusivos e a importância da denúncia.
Ao explicar o objetivo do vídeo, declarou: “Pra vocês que são meninas que estão passando o início daquela relação, abram os olhos. […] Às vezes o cuidado está disfarçado de controle” .
Ela também reforçou que a violência vai além das agressões físicas. “A violência não é só física, ela também é psicológica” .
Ao revisitar o episódio, Eduarda resume a experiência como um processo ainda em curso. “O caminho foi e ainda é muito triste e difícil”, afirmou, destacando o desejo de que seu relato ajude outras mulheres a reconhecer situações de risco e buscar ajuda .

