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Wolbitos estão chegando: entenda o método de mosquitos não transgênicos que promete frear a dengue em BC

Recomendado pela Organização Mundial da Saúde, o método não aumenta o número de picadas e não provoca desequilíbrio ambiental

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Balneário Camboriú foi um dos municípios selecionados pelo Ministério da Saúde para receber o Método Wolbachia, uma estratégia inovadora que tem como objetivo reduzir a transmissão de doenças como dengue, Zika, Chikungunya e Febre Amarela Urbana. O anúncio foi feito em janeiro de 2025, durante reunião com técnicos do Ministério da Saúde, Fiocruz e World Mosquito Program (WMP), quando também foi confirmada a expansão do método para Blumenau.

A implementação em Balneário Camboriú contará com o suporte da biofábrica de Joinville, responsável pela produção dos “Wolbitos”, mosquitos Aedes aegypti com a bactéria Wolbachia, que serão liberados gradualmente agora no segundo semestre. A operação será conduzida pela empresa Wolbito do Brasil, em parceria com o Ministério da Saúde e a Fiocruz.

Joinville, primeira cidade catarinense a adotar o método, já apresenta resultados que, segundo a prefeitura, refletem avanços no combate à dengue. Até julho de 2024, o município havia registrado mais de 80 mil casos e 83 mortes. Em 2025, conforme dados do próprio município, o número caiu para menos de mil casos e nenhum óbito. A administração municipal atribui a redução a um conjunto de ações de prevenção, entre elas o Método Wolbachia.

A prefeita de Balneário Camboriú, Juliana Pavan, afirma estar segura com a implantação do método pelo excelente histórico em outras regiões. “Foram meses de trabalho e planejamento para, agora, efetivarmos essa nova ferramenta de prevenção contra a dengue e outras doenças em nossa cidade. Com isso, damos um importante passo em favor da saúde pública. Estamos ansiosos para a soltura dos primeiros “wolbitos” e, o mais importante, seguros com essa nova medida, já que o método tem apresentado excelentes resultados, a exemplo de Joinville”, comemora.

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Conheça o Wolbito

O Wolbito nada mais é do que um mosquito da espécie Aedes aegypti, igual aos que já existem no ambiente urbano, com a diferença de carregar a bactéria Wolbachia.

Visualmente, ele é idêntico ao mosquito comum, com o corpo escuro e listras brancas características, e mantém os mesmos hábitos, como voar próximo ao solo e se reproduzir em água parada. A principal diferença está no interior do seu organismo.

O Wolbito também não voa longas distâncias, geralmente se desloca no máximo 200 metros de onde nasceu, e, como todo Aedes aegypti, as fêmeas são as responsáveis pelas picadas, já que precisam de sangue para maturar seus ovos. Ao se reproduzir, o Wolbito transmite a Wolbachia para os descendentes, tornando a proteção permanente na população local de mosquitos.

O que é a Wolbachia?

A Wolbachia é uma bactéria natural, presente em cerca de 60% dos insetos do mundo, como borboletas, libélulas e moscas-das-frutas. Apesar de amplamente disseminada na natureza, essa bactéria não ocorre naturalmente no Aedes aegypti, mosquito transmissor da dengue, Zika, chikungunya e febre amarela urbana.

A descoberta da Wolbachia aconteceu em 1924, quando os cientistas americanos Marshall Hertig e S. Burt Wolbach a identificaram no mosquito Culex pipiens. Anos depois, em 1936, a bactéria recebeu oficialmente o nome Wolbachia pipientis.

Décadas mais tarde, os estudos sobre a Wolbachia avançaram com o professor Scott O’Neill, da Universidade de Queensland, na Austrália, que passou a investigar o potencial da bactéria no combate às arboviroses. Em 2008, o desenvolvimento do chamado Método Wolbachia ganhou forma na Monash University, em Melbourne. Foi ali que uma equipe de pesquisadores, incluindo o brasileiro Luciano Moreira, então pesquisador da Fiocruz e atual CEO da Wolbito, conduziu um experimento pioneiro: com o auxílio de microagulhas mais finas que um fio de cabelo, retiraram a Wolbachia da mosca-das-frutas (Drosophila melanogaster) e a inseriram nos ovos do Aedes aegypti.

A partir desse processo, os cientistas comprovaram que, quando infectado com a Wolbachia, o mosquito tem sua capacidade de transmitir vírus significativamente reduzida. Isso ocorre porque a bactéria impede a replicação dos vírus no organismo do inseto, bloqueando a transmissão para os seres humanos.

Atualmente, não é mais necessário repetir o processo de inserção em laboratório. Os mosquitos liberados nas cidades são descendentes diretos daqueles primeiros infectados e já nascem com a Wolbachia, transmitida naturalmente de geração em geração.

Esses mosquitos com Wolbachia são carinhosamente apelidados de Wolbitos, e formam a base do método que será aplicado em Balneário Camboriú. Segundo os pesquisadores, além de eficaz, a bactéria é inofensiva para seres humanos, animais e o meio ambiente, tornando o método uma alternativa segura, natural e sustentável no combate às doenças tropicais.

Como funciona?

O Método Wolbachia envolve uma série de atividades coordenadas, como a análise contínua de dados, ações de educação e engajamento da população local, a liberação controlada de mosquitos Aedes aegypti com Wolbachia — uma bactéria que impede o desenvolvimento dos vírus da dengue, Zika e chikungunya no mosquito, reduzindo assim a transmissão dessas doenças — e o acompanhamento por meio de estudos epidemiológicos rigorosos.

O Método consiste em introduzir a bactéria Wolbachia nos ovos do mosquito Aedes aegypti, criando uma nova população de mosquitos que não são capazes de transmitir vírus. Esses mosquitos, já com a bactéria em seu organismo, são chamados de Wolbitos.

A Wolbachia atua de forma inteligente: ela interfere no ciclo reprodutivo do mosquito de forma natural, garantindo sua propagação de maneira contínua. Quando uma fêmea do Aedes aegypti carrega a bactéria, ela transmite a Wolbachia automaticamente para todos os seus descendentes. Já quando um macho com Wolbachia acasala com uma fêmea que não possui a bactéria, a fecundação acontece, mas os ovos não eclodem, um processo conhecido como incompatibilidade citoplasmática.

Com o tempo, esse mecanismo faz com que a quantidade de mosquitos com Wolbachia aumente progressivamente até se estabilizar na população local. O resultado é uma comunidade de mosquitos que, mesmo picando uma pessoa, não conseguem transmitir os vírus — tornando o método uma estratégia de controle eficiente, duradoura e de baixo custo a longo prazo.

Segurança do método

As ações do projeto no Brasil seguem protocolo aprovado pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP). O método é recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e passou a fazer parte das políticas públicas de saúde do Brasil.

Segundo o World Mosquito Program (WMP), não há qualquer modificação genética envolvida no processo, nem na bactéria Wolbachia nem no mosquito Aedes aegypti. O método é inteiramente baseado em um processo natural, sem uso de transgênicos, e tem se mostrado seguro, eficaz e ambientalmente responsável.

O diretor-presidente da Wolbito do Brasil, Luciano Moreira, responsável por trazer o método para o país, reforça que o Método Wolbachia é complementar a outras estratégias já conhecidas, como o combate aos criadouros. “Nosso método é seguro, natural e autossustentável. Nosso grande diferencial é a etapa de comunicação e engajamento, pois com a população bem-informada e engajada os resultados são melhores. A união de forças produz um efeito mais significativo”, destaca Moreira.

A tecnologia é amplamente respaldada por estudos científicos, tanto nacionais quanto internacionais. Um dos mais relevantes foi publicado em junho de 2021 na revista científica The New England Journal of Medicine. O estudo, conduzido em Yogyakarta, na Indonésia, comprovou a eficácia do Método Wolbachia ao apontar uma redução de 77% nos casos de dengue e 86% nas hospitalizações em áreas onde os mosquitos com Wolbachia foram liberados. Além disso, a proteção se mostrou eficaz contra os quatro sorotipos do vírus da dengue.

A história do Método Wolbachia no mundo e no Brasil

O Método Wolbachia foi desenvolvido na Austrália e aplicado pela primeira vez em 2011, no norte de Queensland, pelo World Mosquito Program (WMP). A iniciativa pioneira consistiu na liberação de mosquitos Aedes aegypti com a bactéria natural Wolbachia em áreas historicamente afetadas por surtos de dengue, como Cairns, Townsville e Cassowary Coast. A estratégia contou com forte apoio da comunidade local e aprovação das autoridades de saúde pública.

Os resultados foram imediatos e expressivos. O monitoramento de longo prazo mostrou que a bactéria se estabeleceu de forma estável nas populações locais de mosquitos e que, nas regiões tratadas, não houve mais transmissão local de dengue, e transformou o norte de Queensland em uma área livre da doença pela primeira vez em mais de 100 anos. De acordo com dados da World Mosquito Program, a aplicação do método resultou em uma redução de 96% nos casos de dengue na Austrália.

Com base nesse sucesso, o método passou a ser adotado em outros países da Ásia, Oceania e América Latina. Atualmente, segundo a Fiocruz, o Método Wolbachia está presente em mais de 20 cidades de 14 países, com os Wolbitos, se estabelecendo em níveis positivos e sustentáveis nos territórios onde foram liberados.

A Colômbia também apresenta resultados expressivos, com a primeira liberação de mosquitos com Wolbachia realizada em maio de 2015, no bairro Paris, em Bello. A ação foi resultado de quase dois anos de preparação e de engajamento com a comunidade local. Entre 2015 e 2022, o WMP, em parceria com a Universidade de Antioquia, promoveu liberações em larga escala nos municípios de Bello, Medellín e Itagüí, protegendo mais de 3,5 milhões de pessoas.

Em 2023, os resultados foram divulgados na revista científica PLOS Neglected Tropical Diseases e apontaram um impacto extraordinário: os casos de dengue caíram entre 95% e 97% nas áreas tratadas, atingindo o nível mais baixo em 20 anos no Vale de Aburrá, região metropolitana de Medellín.

A expansão do Método Wolbachia no Brasil

No Brasil, os primeiros estudos com o Método Wolbachia tiveram início em 2012, por meio de uma parceria entre o World Mosquito Program (WMP) e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). As primeiras liberações de mosquitos com Wolbachia ocorreram em 2014, nas áreas-piloto de Jurujuba, em Niterói, e Tubiacanga, no Rio de Janeiro.

Desde então, o método tem avançado gradualmente, alcançando diferentes regiões do país. Em 2024, Niterói tornou-se o primeiro município brasileiro a ter 100% de seu território coberto pela tecnologia. Segundo estudos da Fiocruz, a cidade registrou uma redução de 69% nos casos de dengue após a cobertura completa com Wolbitos.

Atualmente, o WMP já implantou o método em oito cidades brasileiras:

  • Niterói (RJ)
  • Rio de Janeiro (RJ)
  • Londrina (PR)
  • Foz do Iguaçu (PR)
  • Campo Grande (MS)
  • Belo Horizonte (MG)
  • Petrolina (PE)
  • Joinville (SC)

Além dessas, outras três cidades estão em fase de implantação:

  • Presidente Prudente (SP)
  • Uberlândia (MG)
  • Natal (RN)

Santa Catarina: o avanço no Sul

Em Santa Catarina, a cidade de Joinville foi a primeira a receber os Wolbitos, em agosto de 2024, acompanhada da inauguração de um núcleo regional de produção para atender à criação local de mosquitos com Wolbachia. O município vinha sendo duramente afetado pela dengue, figurando entre os dez com mais casos no país em 2024 e sendo o que mais registrou mortes por dengue em 2023.

Os resultados da intervenção foram expressivos. Até julho de 2024, Joinville havia acumulado mais de 80 mil casos de dengue e 83 mortes. Em 2025, após a aplicação do Método Wolbachia, os números despencaram para menos de mil casos e nenhum óbito, representando uma redução de 98% na incidência da doença, segundo a prefeitura.

Balneário Camboriú: próxima cidade a receber Wolbitos

Balneário Camboriú será o próximo município catarinense a receber os Wolbitos. A previsão é de que os primeiros mosquitos com Wolbachia sejam liberados agora no segundo semestre, em áreas já mapeadas previamente pela equipe técnica. É importante destacar que os Wolbitos não migram para outros bairros e voam a no máximo dois metros do chão, permanecendo nas regiões onde são soltos, o que permite um controle geográfico preciso da cobertura.

Além de Balneário Camboriú, outros municípios também se preparam para receber o método, como Blumenau, além de novas áreas em Joinville. Fora de Santa Catarina, a Wolbito do Brasil também está organizando expansões em Valparaíso de Goiás, Luziânia e no Distrito Federal (Brasília).

A seleção dos municípios é feita com base em critérios técnicos definidos pelo Ministério da Saúde, considerando fatores como incidência de arboviroses e viabilidade técnica. A implantação é realizada pela Wolbito do Brasil, com apoio estratégico da Fiocruz, consolidando o país como uma referência global na aplicação do Método Wolbachia.

Mitos e verdades sobre os Wolbitos

Apesar dos resultados expressivos alcançados pelo Método Wolbachia, muitas dúvidas ainda pairam sobre os Wolbitos. Uma das confusões mais recorrentes vem da associação indevida com os mosquitos transgênicos liberados por outra empresa entre 2013 e 2015, na Bahia. Aqueles mosquitos possuíam uma modificação genética que inseria um gene letal, fazendo com que seus descendentes morressem ainda na fase de larva. Já os Wolbitos não são transgênicos, eles carregam uma bactéria natural, sem qualquer alteração em seu DNA.

???? Mito 1: Os Wolbitos são mosquitos transgênicos criados em laboratório.
✅ Verdade: Os Wolbitos não são geneticamente modificados. O Método Wolbachia utiliza uma bactéria natural presente em cerca de 60% dos insetos do mundo, como borboletas, libélulas e moscas-das-frutas. Tanto a bactéria quanto o mosquito mantêm seu material genético original — ou seja, não há transgenia nem modificação no DNA. O processo é totalmente natural e seguro.

???? Mito 2: Os Wolbitos vão sofrer mutações e criar uma nova espécie de mosquito.
✅ Verdade: Isso não acontece. Os Wolbitos continuam sendo Aedes aegypti, a mesma espécie já existente no ambiente urbano. A presença da bactéria Wolbachia não altera o DNA do mosquito e não provoca mutações genéticas. Ao se reproduzirem, os Wolbitos apenas transmitem a bactéria para seus descendentes, o que não gera uma nova espécie, apenas uma população de mosquitos com menor capacidade de transmitir doenças. Não há nenhum risco de surgimento de supermosquitos ou mutações descontroladas — isso já foi amplamente estudado e descartado pela ciência.

???? Mito 3: A bactéria Wolbachia pode fazer mal à saúde humana.
✅ Verdade: A Wolbachia não causa doenças em humanos, animais ou plantas. Ela vive apenas dentro das células dos mosquitos e de outros insetos, e não é capaz de sobreviver fora desses organismos. É considerada segura por instituições como a Fiocruz e a Organização Mundial da Saúde (OMS). A bactéria está presente naturalmente em diversos insetos que convivem com os seres humanos há séculos, inclusive no Brasil, sem jamais ter causado qualquer impacto à saúde.

???? Mito 4: Esses mosquitos podem picar mais e aumentar os casos de dengue.
✅ Verdade: Os Wolbitos não aumentam o risco de transmissão da dengue. Pelo contrário, quando possuem a Wolbachia, os mosquitos têm sua capacidade de transmitir os vírus da dengue, Zika, chikungunya e febre amarela urbana drasticamente reduzida.

???? Mito 5: A liberação dos mosquitos pode causar desequilíbrio ambiental.
✅ Verdade: A liberação de Wolbitos não afeta negativamente o meio ambiente. Como são da mesma espécie já existente nos ambientes urbanos (Aedes aegypti), os mosquitos com Wolbachia apenas substituem gradualmente os mosquitos sem a bactéria, sem causar desequilíbrios ecológicos.

???? Mito 6: Depois de um tempo, os mosquitos com Wolbachia desaparecem e o método perde o efeito.
✅ Verdade: O método é autossustentável. Os Wolbitos transmitem a bactéria naturalmente para seus descendentes, o que garante a manutenção da Wolbachia nas populações de mosquitos ao longo do tempo, sem a necessidade de reaplicações constantes. Esse é justamente um dos diferenciais do método: ele se mantém ativo na natureza sem depender de intervenções frequentes, garantindo um controle duradouro e sustentável das doenças.

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