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Pesca artesanal em Balneário Camboriú: desafios, conflitos e luta pela preservação cultural

Conflito entre pescadores e Prefeitura na Praia do Pinho revela condições precárias de trabalho e necessidade de apoio à pesca artesanal

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A pesca artesanal é uma atividade econômica importante em Balneário Camboriú e enfrenta um mar agitado de desafios. Uma controvérsia entre os pescadores e a equipe da prefeitura de Balneário Camboriú, ocorrida na tarde da última segunda-feira, 19, na praia do Pinho, colocou em destaque a situação em que se encontram os trabalhadores. Vídeos de pescadores emocionados em cima do telhado de um rancho de pesca tentando impedir a ação da prefeitura, que planejava derrubar a estrutura, desdobrou-se em um incidente público, que comoveu a comunidade local.

De um lado, os pescadores afirmam enfrentar condições precárias de trabalho. Por outro lado, a prefeitura alega que Joabe Linhares, quinta geração de uma família de pescadores, cometeu um crime ambiental ao construir o rancho. Esse incidente trouxe à tona a situação da pesca artesanal na cidade, destacando a discrepância entre as condições de trabalho nas praias com ranchos de pesca permanentes e aquelas que não possuem essa estrutura e não recebem apoio governamental para sua instalação.

Os pescadores têm consciência de que os ranchos fixos existentes em quatro praias da cidade estão lá há centenas de anos. O rancho do Estaleirinho, por exemplo, possui uma história de cerca de 207 anos. Eles deixam claro que desejam lutar pelo direito de manter a cultura pesqueira viva em todas as praias de Balneário Camboriú, sem prejudicar ninguém. Essa é uma demanda legítima dos pescadores, que buscam igualdade de oportunidades e condições adequadas de trabalho em todas as áreas pesqueiras da cidade.

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Ao ter conhecimento dessa situação, a equipe de reportagem do Camboriú News embarcou em uma jornada investigativa para compreender essa e outras demandas relacionadas à pesca artesanal, uma das primeiras atividades econômicas de Balneário Camboriú. Durante essa investigação, além de explorar os desafios enfrentados pelos pescadores, buscamos compreender suas reivindicações e outras questões relevantes ligadas à preservação cultural e à importância desse setor para a comunidade local.



Rancho da Praia do Pinho: condições precárias e luta por reconhecimento

Barraca cedida pela prefeitur
Barraca cedida pela prefeitura

De acordo com Joabe, a prefeitura havia disponibilizado para os pescadores da Praia do Pinho, uma barraca de apenas 3×3 metros para 15 pessoas, desprovida de banheiro e cozinha, para a temporada da pesca da tainha. Insatisfeitos com as condições precárias de trabalho, os pescadores construíram o rancho por conta própria na praia do Pinho e protocolaram um pedido de autorização junto à União para o uso permanente da estrutura, aguardando ainda uma resposta.

A estrutura do rancho feito pelos pescadores, conta com 14 metros quadrados, feito de eucalipto, coberto por telhas de eternit e fechado com lona nas laterais. O local conta com uma cozinha, uma mesa para alimentação e um fogão a lenha, que auxilia na iluminação e aquecimento dos pescadores, já que não há energia elétrica disponível. Além disso, o rancho possui camas e serve como abrigo para as canoas e equipamentos de pesca dos pescadores.

Rancho feito pelos pescadores

Segundo o relato de Linhares, representantes da prefeitura compareceram ao local com a intenção de derrubar o rancho. No entanto, após a manifestação dos pescadores, um acordo foi firmado, permitindo que o grupo mantivesse a estrutura até o final da temporada da pesca da tainha, mas com a condição de que o rancho seja demolido posteriormente.

Os pescadores questionam a desigualdade entre as praias de Balneário Camboriú. Enquanto as praias de Laranjeiras, Taquaras, Estaleirinho e Estaleiro possuem ranchos permanentes de pesca, as praias do Pinho, Taquarinhas e Praia Central não têm esse direito.

Joabe Linhares relata que, na praia de Taquarinhas, também enfrentam condições precárias de trabalho e decidiram construir um rancho por conta própria. No entanto, assim como no caso do rancho da praia do Pinho, eles também foram obrigados a assinar um termo da prefeitura e terão que desmanchar o rancho no dia 1º de agosto.

O pescador destaca a necessidade de um plano de trabalho por parte da prefeitura, a fim de regularizar e estabelecer um espaço adequado para os pescadores artesanais exercerem sua atividade de forma digna. Ele ressalta a importância de ter um lugar onde possam descansar e fazer suas refeições com o mínimo de respeito. A luta dos pescadores é pela igualdade de oportunidades e condições adequadas de trabalho em todas as praias de Balneário Camboriú, incluindo o Pinho, Taquarinhas e Praia Central. “A gente vem tentando buscar ajuda, mas até hoje as coisas não acontecem e quando acontecem é dessa maneira”, pontua Joabe.

Disputa ambiental

Na noite de segunda-feira, após os vídeos da confusão ganharem ampla repercussão, a secretaria de Meio Ambiente emitiu uma nota assinada pela secretária Maria Heloísa. Segundo a nota, foram relatados cortes de vegetação, deposição de resíduos e construção sem autorização em uma Área de Preservação Permanente (APP), utilizando concreto na área de restinga. A secretaria destaca que a construção foi embargada e o rancho foi objeto de intimação. Além disso, a nota menciona o acordo feito em reunião com os pescadores, no qual foi estabelecido que a estrutura seria demolida somente em agosto, após o término da safra da pesca da tainha. A nota da secretaria de Meio Ambiente ainda menciona um projeto em andamento para estabelecer regras e regulamentações para a construção e reforma de ranchos de pesca em praias agrestes.

Nota na íntegra:

“Após diversas denúncias de crime ambiental pelo corte de vegetação, deposição de resíduos e construção sem autorização em Área de Preservação Permanente (APP) com uso de CONCRETO na área de restinga a SEMAM realizou a intimação e o embargo da estrutura construída. No dia 30 de maio o Sr JOABE LINHARES MEDEIROS e seu irmão, responsáveis pela construção, foram chamados na Prefeitura para reunião de alinhamento onde ficou definido que os pescadores iriam assinar um termo de compromisso para demolição da estrutura apenas no dia 01 de agosto de 2023, quando a safra tem fim.

Ignorando o embargo, a intimação e o acordo feito em reunião os pescadores se negaram a comparecer na SEMAM para assinatura do Termo de Compromisso, desrespeitando os fiscais e o cumprimento de seu dever como servidores públicos. As solicitações para que assinassem o termo de compromissos foram enviadas pelo Diretor de Fiscalização em três diferentes datas via WhatsApp. Dias 13/05, dia 14/05 e dia 16/05 sendo todas ignoradas pelo sr Joabe.

Outros membros do executivo e do legislativo municipal se colocaram a disposição para auxiliar e ainda assim o Sr Joabe ignorou a todos. Ele mente ao dizer que não recebe apoio e que o município está sendo arbitrário uma vez que teve todas as oportunidades para regularizar a estrutura de apoio a pesca mas IGNOROU todas elas.

A Pesca, a Cultura ou qualquer q seja a tradição não pode estar acima da lei cometendo crime ambiental. A Prefeitura incentiva a cultura da Pesca da Tainha com diversas ações de fiscalização através da SEMAM e a Fundação Cultural através da Colônia de pescadores reverteu recursos para que os Pescadores possam montar suas estruturas durante a Safra.

Os pescadores das demais praias cumprem os regramentos legais e portanto não existe conflito. Mas com o Sr Joabe não há conversa, não há alinhamento. Ele prefere esse tipo de situação vitimista e mentirosa que dá repercussão em rede social.

Aproveito para informar que a Fundação Cultural e a Secretaria de Meio Ambiente estão trabalhando para definição de regramentos para construção e reforma de ranchos de pesca nas praias agrestes.”

Após a nota emitida pela secretária de Meio Ambiente sobre o projeto de regramento de ranchos de pesca em praias agrestes, procuramos obter mais informações a respeito. A secretária esclareceu que existe um plano em andamento para autorizar a construção e/ou reforma de um rancho de pesca ou apoio de pesca em cada uma das praias agrestes. Além disso, foi mencionado que a Praia Central já possui três ranchos regularizados, cuja estrutura será definida pelo projeto de Reurbanização. A definição sobre se os ranchos serão fixos ou temporários durante o período de pesca da tainha ainda está em discussão.

Apoio de autoridades e críticas à ação da Prefeitura

O caso do rancho de pesca na praia do Pinho ganhou repercussão, com autoridades e líderes da pesca manifestando suas opiniões sobre a ação de demolição realizada pela prefeitura.

José Henrique Francisco dos Santos, chefe da divisão Aquicultura e Pesca do governo Bolsonaro em Santa Catarina, gravou um vídeo em apoio aos pescadores, destacando a importância da regularização dos ranchos de pesca. No vídeo, José Henrique critica a ação de demolição do rancho e faz um apelo ao prefeito Fabrício e a todos os prefeitos do litoral de Santa Catarina. Ele ressalta que os pescadores são uma comunidade tradicional pesqueira e possuem direitos garantidos por leis federais. José Henrique se disponibiliza a auxiliar qualquer prefeitura municipal na aprovação de leis que regulamentem o processo administrativo para a construção e regularização de ranchos de pesca. “Rancho de pesca se regulariza! Não se derruba! Apoiem seus pescadores!”, clamou na legenda da publicação.

Luiz Américo Pereira, presidente da Comissão da Pesca do Litoral Norte, também gravou um vídeo em resposta ao caso. Ele destaca a existência de uma lei municipal, sancionada em 2019, que reconhece a pesca da tainha como patrimônio cultural e material em Balneário Camboriú. “Eu quero crer, prefeito Fabrício, que esses agentes de fiscalização desconhecem a lei que o senhor, prefeito, sancionou no ano 2019”, expõe. Luiz ressalta que os ranchos utilizados para a pesca artesanal da tainha possuem caráter sazonal entre 1º de maio e 31 de julho, pede que os pescadores sejam permitidos a trabalhar e enfatiza que a lei é clara: é um rancho, não uma tenda.

Condições precárias de trabalho na pesca artesanal da Praia Central

A situação precária de trabalho na pesca artesanal da Praia Central vem sendo denunciada por pescadores locais. Após o caso do rancho de pesca da Praia do Pinho ganhar destaque, o pescador João Victor Albano Martins divulgou imagens de sua barraca de pesca na rua 3100, demonstrando as condições inadequadas em que trabalham. A equipe de reportagem também procurou a bióloga Ingrid Hyrycena dos Santos, que já trabalhou com os pescadores na Praia Central, e confirmou as necessidades enfrentadas pelos profissionais.

Segundo João Victor, a barraca fornecida pela prefeitura para os pescadores é pequena e inadequada para as necessidades da cidade. Ele destaca a arrecadação financeira do município e questiona a falta de investimento em estruturas adequadas. O pescador expressa sua insatisfação com as condições precárias e lamenta a falta de apoio para a primeira atividade econômica de Balneário Camboriú.

Ingrid Hyrycena dos Santos, bióloga fundadora do Projeto Tubarão, que acompanhou de perto a realidade da pesca artesanal na Praia Central e conhece as necessidades enfrentadas pelos profissionais, destaca as mudanças ocorridas após o alargamento da faixa de areia.

Antes do alargamento, as barracas ficavam próximas da calçada e ofereciam abrigo contra sol, chuva e vento. Com o novo layout da praia, as barracas foram realocadas, sendo a cozinha montada próxima à calçada e a área de vigia e descanso mais adiante na areia. A falta de energia elétrica nas barracas de apoio é um problema enfrentado neste ano, dificultando ainda mais as condições de trabalho dos pescadores.

Visita aos ranchos de pesca

A equipe de reportagem visitou os ranchos de pesca da Praia Central e constatou que as demandas e reclamações dos pescadores são semelhantes. A falta de condições dignas de trabalho e o suporte insuficiente para a temporada da tainha são as principais queixas. Além disso, foi descoberto que as barracas de apoio, localizadas no meio da praia, não receberam energia elétrica da prefeitura neste ano, devido à falta de material para a instalação, segundo informações dos pescadores. Também foi relatada a falta de fiscalização em relação à lei que proíbe o uso de jet skis, lanchas rebocadoras, embarcações motorizadas e redes irregulares nas orlas das praias durante a temporada da tainha.

Confira a seguir a demanda de cada rancho visitado.

Rancho do Vô Luiz

Precariedade das condições de trabalho e descaso da Prefeitura

O Rancho do Vô Luiz, da canoa Anita W, anteriormente conhecido como Pico da Canoa, enfrenta sérias dificuldades e falta de suporte por parte da prefeitura. Seu Luiz Wilbert, um pescador experiente de 67 anos, denuncia a precariedade das condições de trabalho oferecidas e o descaso em relação às necessidades dos pescadores. O rancho, que servia de abrigo para canoas e equipamentos de pesca, foi desmantelado pela fiscalização municipal, resultando em uma série de problemas enfrentados pelos pescadores.

A falta de suporte da Prefeitura

Seu Luiz expressa sua indignação em relação à prefeitura, afirmando que a falta de apoio adequado é uma vergonha para uma cidade como Balneário Camboriú. Ele destaca a falta de um rancho adequado e abrigo para as canoas, ressaltando a diferença entre as condições oferecidas na Praia Central e em outros locais, como o Estaleiro. Seu Luiz menciona que, até 2019, os pescadores podiam montar seus próprios ranchos temporários para a temporada da tainha, mas o atual governo mudou essa permissão.

Promessas não cumpridas

Uma matéria de junho de 2019 encontrada no site da prefeitura relata uma reunião entre pescadores, a administração municipal e a Guarda Municipal. Na ocasião, foi prometido um ponto de equilíbrio e uma forma de preservar e valorizar o trabalho dos pescadores, além da instalação provisória de tendas para encerrar a temporada da tainha. “No ano que vem (2020), teremos um aparato maior, tornando esses pontos de pesca verdadeiros atrativos turísticos e valorização do meio ambiente e da própria tradição dos pescadores”, prometeu o então secretário de segurança, David Queiroz. Entretanto, essas promessas nunca foram cumpridas pelo governo municipal, o que gerou frustração e desânimo entre os pescadores.

Retirada do rancho Pico da Canoa

Seu Luiz manteve seu rancho, Pico da Canoa, mesmo após a retirada das tendas pela prefeitura. O rancho era uma espécie de tenda que os protegia do sol, chuva e vento, e também servia de abrigo para as canoas. Por conta desse rancho, a dinâmica das barracas cedidas pela prefeitura era diferente com o seu Luiz. Ele recebia as barracas da prefeitura e o seu rancho ficava de abrigo para as canoas e seus equipamentos de pesca. Porém no início de 2023 a fiscalização esteve no local junto com a Guarda Municipal e removeram permanentemente seu rancho.

Procuramos a secretária do meio ambiente Maria Heloísa para saber o motivo do desmanche do rancho e ela informou que não sabe quem é o seu Luiz e que a prefeitura só desmanchou as tendas que estavam irregulares com acúmulo de resíduos e sendo utilizada para outros fins. Também questionamos a assessoria de imprensa sobre a retirada e foi alegado que o rancho não foi retirado.

Situação atual do Rancho do Vô Luiz

Durante a visita ao rancho, seu Luiz nos apresentou o local, e explicou que nessa temporada da tainha, o, agora, “Rancho do Vô Luiz” conta apenas com uma barraca próxima à areia, que serve como cozinha e dormitório para duas pessoas. No entanto, não há encanamento disponibilizado pela prefeitura, e não foram fornecidas orientações sobre o descarte correto do esgoto. Os pescadores desenvolveram uma técnica improvisada para filtrar a sujeira, utilizando um pano para separar a sujeira da água antes do descarte no esgoto.

A barraca do vigia não recebe energia elétrica da prefeitura, deixando os pescadores no escuro durante as atividades. Além disso, sem o antigo rancho, a canoa e os equipamentos de pesca ficam desprotegidos. Seu Luiz também menciona que a fiscalização confiscou restos de uma rede de pesca que havia sido danificada por um incêndio, e que estava sendo usada para fazer uma rede nova, bem como um freezer e uma mesa maciça, sem explicação ou justificativa adequada.

Berbigões mortos registrados na Praia Central em 29/07/2021 - crédito 
 Beto Moretao
Descaso com o berbigão e barulho das máquinas

Seu Luiz destaca ainda a falta de planejamento em relação ao berbigão, afirmando que a prefeitura não tomou medidas para preservar essa espécie, que foi severamente afetada pela falta de cuidado. Ele menciona ter tentado conversar com a Secretaria do Meio Ambiente sobre a possibilidade de buscar berbigão em outras praias para repovoar a região, mas não obteve resposta ou apoio.

Os pescadores também se queixam do barulho causado pelas máquinas da Secretaria de Obras na praia, alegando que esse ruído afasta os cardumes de peixes.

Rancho da Selma

Demandas por estrutura adequada e fiscalização efetiva

O Rancho da Selma, localizado na rua 4100 da Praia Central de Balneário Camboriú, enfrenta diversos desafios, incluindo a falta de estrutura adequada e a ausência de uma fiscalização efetiva por parte da prefeitura. Os pescadores do rancho reivindicam melhores condições de trabalho, como um rancho fixo que possua um banheiro digno e um ponto de vigia. Além disso, eles relatam problemas com a presença de embarcações ilegais na área, como jet skis e lanchas, que afetam a pesca e não são devidamente fiscalizadas.

A necessidade de infraestrutura adequada

Ronam, um dos pescadores do rancho, destaca a falta de estrutura como a principal dificuldade enfrentada por eles. Eles sugerem a construção de um rancho fixo, similar aos existentes em outras praias, como Taquaras, Estaleiro e Estaleirinho, para proporcionar um banheiro digno e um ponto de vigia adequado. Ronam menciona que o rancho atual possui apenas um banheiro químico e que a falta de um local apropriado prejudica a guarda das canoas e das redes quando não estão sendo usadas durante a temporada da tainha.

Ronam também relatou que eles e os parceiros de pesca estão no local por amor: “sol, chuva, sol, chuva, não tem quem aguente. Ah, mas por que vocês continuam? Porque a gente ama o que faz, e estamos mantendo uma cultura que veio de muito antes”.

Ele finalizou dizendo que entende que o desenvolvimento da cidade tem que acontecer e compreende que os prédios ao redor da praia, as lanchas e os jet skis valem milhões, e que uma tainha custa apenas R$30 reais, tem uma diferença muito grande na questão econômica: “mas é a origem é a raiz e a gente só quer preservar, só isso, só isso”.

Fiscalização deficiente e presença de embarcações ilegais

Os pescadores também expressam sua insatisfação em relação à falta de fiscalização em relação ao uso ilegal de jet skis, stand up paddle e outras embarcações na área onde o rancho está localizado, próximo à saída do rio Camboriú. Eles afirmam que essas embarcações perturbam os cardumes de peixes, afetando negativamente a pesca artesanal. Embora a prefeitura tenha colocado placas informativas sobre a proibição dessas atividades, os pescadores destacam a falta de uma fiscalização efetiva por parte das autoridades competentes.

Seu Zé, de 70 anos, está há 50 anos na pesca e é o patrão da canoa Selma. Ele mostrou pra nossa equipe que naquele exato momento havia uma rede de pesca no mar, trancando a passagem do peixe e explicou: “hoje pegaram lá em Taquaras quase 6 mil tainhas, mas colocam rede aqui e não deixam o peixe entrar na praia. Nós estamos 51 dias aqui e não colocamos 50 centavos no bolso ainda, só estamos gastando”.

Laércio, um dos responsáveis pelo rancho, reforçou a situação que o ponto vem sofrendo com as redes e embarcações ilegais que praticam pesca ilegal no local pois o meio ambiente não realiza a fiscalização. “Quando não são esses caiaques havaianos que saem remando de manhã cedinho, em direção ao boqueirão, stand-up , pessoas nadando, trator rastelando a praia fazendo barulho a noite toda, tem esses espertinhos que, por falta de fiscalização, fazem o que querem. De que adianta avisar a SEMAM se a mesma até se deslocar ao local, já levaram o peixe todo?”, indagou.

Na tarde desta sexta-feira, 23, Laercio enviou mensagens de pedido de fiscalização. “Baterinha com motor procurando peixe aqui em frente o rancho. Esse bote esta todos os dias retirando rede, já avisamos várias vezes e ninguém faz nada”. Diversas mensagens como essas são enviadas pelos pescadores que muitas vezes só recebem resposta dias após a denúncia, quando recebem. Ele conta que não para de chegar embarcação ilegal na praia Central e a fiscalização não consegue pegá-los. Segundo uma fonte do nosso portal, a fiscalização não estaria flagrando essas embarcações ilegais neste ano, pois quando a lancha da SEMAM parte da marina, o marinheiro estaria avisando os conhecidos para retirarem as redes.

Laercio diz ainda que por diversas vezes pediram ao diretor de fiscalização o plano de navegação deles, mostrando a quantidade de saídas, horários e apreensões, mas nunca obteve resposta.

Necessidade de uma Guarda Municipal Marítima e melhoria na fiscalização

Os pescadores do Rancho da Selma expressam a necessidade de uma Guarda Municipal Marítima para realizar a fiscalização adequada na área. Eles relatam que esse assunto já foi discutido em reuniões com a prefeitura, mas não foi efetivamente implementado. Eles também comentam sobre a falta de resposta por parte dos órgãos competentes em relação a solicitações e denúncias, além da ausência de um plano de navegação e de uma fiscalização mais efetiva.

O outro lado

Nossa equipe questionou a prefeitura sobre quem fiscaliza a questão dos jet skis e lanchas e fomos informados que a fiscalização é feita pela Marinha. Não satisfeitos com a resposta, procuramos a secretária Maria Heloísa para saber se existe alguma ação do meio ambiente. A secretária informou que os fiscais do Meio Ambiente possuem uma lancha e fazem a abordagem.

Quando questionamos se existe algum trabalho realizado pelo meio ambiente em relação a conscientização da safra da tainha na costa da praia e marinhas de Balneário Camboriú, Heloísa se limitou a dizer que as marinas comunicam os clientes da proibição e a secretária da Cultura também edita um material para divulgação.

Sobre a questão da possibilidade da criação de uma Guarda Municipal Marítima e ela apenas informou que cabe a capitania dos portos essa fiscalização e a Polícia militar Ambiental também está com embarcação, e a Secretaria Meio Ambiente (SEMAM) também efetua essas fiscalizações.

Rancho dos Rapazes

Condições precárias e necessidade de suporte

O Rancho dos Rapazes, da Canoa Espada, localizado na altura da rua 3100, enfrenta condições precárias de trabalho e a falta de suporte por parte da prefeitura. Os pescadores do rancho destacam a situação lamentável das barracas cedidas pela prefeitura, a falta de encanamento e a ausência de um rancho fixo. Eles ressaltam a necessidade de melhorias para garantir condições adequadas de trabalho e preservar a pesca artesanal na região.

Condições Precárias das Barracas e Ausência de Infraestrutura

João, um dos pescadores do rancho, relata as condições precárias das barracas cedidas pela prefeitura. Ele menciona que as barracas já foram entregues danificadas e em péssimo estado, não oferecendo proteção adequada contra o frio e o vento. Eles tentaram reparar as aberturas com fitas, mas sem sucesso. Durante um ciclone que atingiu a costa de Santa Catarina, tiveram que se preocupar mais com a barraca sendo levada pelo vento do que com o mar. Dentro das barracas, eles utilizam barracas de acampamento para se proteger do frio e da chuva.

João também lutou pela substituição das barracas por contêineres, apresentando um orçamento à prefeitura, mas a proposta não foi acolhida. Ele destaca que os contêineres ofereceriam melhores condições climáticas e maior segurança aos pescadores, além de proporcionar um local para guardar seus documentos, já que não podem levá-los para o mar.

Falta de suporte e risco de desaparecimento da pesca artesanal

Os pescadores do Rancho dos Rapazes enfatizam a necessidade de suporte para a pesca artesanal na Praia Central. Eles expressam sua preocupação com a falta de incentivo e de condições adequadas para preservar essa atividade tradicional. Juliano ressalta a importância de lutar por condições melhores, não apenas em termos de estrutura física, mas também para poder receber visitantes, compartilhar a história da pesca e envolver as crianças em atividades educativas.

História da pesca em Balneário Camboriú

A pesca é uma das atividades econômicas mais antigas da região de Balneário Camboriú, que remonta a tempos anteriores à própria existência da cidade. Com a fundação da Colônia de Pescadores Z7 em 1927, a pesca artesanal se consolidou como a principal matriz econômica da então Praia de Camboriú. Com o passar dos anos, a pesca acompanhou o desenvolvimento da região e se tornou parte integrante da história e cultura local.

A ascensão da pesca artesanal em Balneário Camboriú

Durante a década de 1920, a Praia de Camboriú era um reduto de pescadores, onde a pesca artesanal desempenhava um papel fundamental na economia local. Foi nesse contexto que, em 1927, a Colônia de Pescadores Z7 foi fundada, sendo uma das primeiras da região. A atividade pesqueira era tão relevante que, somente oito anos depois, em 1935, foi inaugurado o primeiro hotel na praia, o Strand Hotel, indicando o início do desenvolvimento turístico na região.

A emancipação de Balneário Camboriú e o crescimento turístico

Em 20 de julho de 1964, Balneário Camboriú se tornou uma cidade independente, deixando de fazer parte do município de Camboriú. A partir desse marco, a cidade começou a se desenvolver como um grande polo turístico, atraindo visitantes de todo o país e até mesmo do exterior. O crescimento do turismo trouxe mudanças significativas para a região, impactando também a pesca artesanal local.

A cultura da pesca da tainha e a luta pela preservação

Isaque de Borba Correa, historiógrafo local, compartilha detalhes sobre a cultura da pesca da tainha em Balneário Camboriú. Ele destaca que a pesca da tainha era considerada um evento grandioso, onde o dono de uma rede se tornava uma autoridade na praia. “Quando eu era rapaz pequeno no Canto da Praia de Camboriú, a pesca da tainha era o evento mais grandioso que existia. No tempo da tainha, o dono de uma rede tornava-se a maior autoridade de uma praia.”

Antigamente, durante a safra da tainha, os pescadores tinham o poder de interromper qualquer atividade barulhenta para evitar afugentar os peixes. Era proibido que estranhos caminhassem na praia ou fizessem qualquer marcação na areia que pudesse assustar os peixes. No entanto, com o passar do tempo, muitas mudanças ocorreram.

Laércio, um dos pescadores, expressa sua preocupação com a tradição pesqueira e a falta de apoio atualmente. Ele destaca que se a temporada da tainha não for bem-sucedida, eles irão buscar apoio das autoridades responsáveis. Refere-se também à lei municipal que declarou a pesca artesanal da tainha como patrimônio cultural imaterial de Balneário Camboriú.

Apoio à pesca artesanal e festas tradicionais

Procuramos a prefeitura para entender o apoio oferecido à pesca artesanal. A secretaria da cultura respondeu que, anualmente, a Fundação Cultural de Balneário Camboriú e a Colônia de Pescadores Z7 identificam as necessidades dos pescadores e contratam serviços de apoio para a temporada da tainha. Isso inclui a instalação de pontos de vigia e banheiros químicos para os pescadores que solicitam esses serviços. Além disso, a cidade realiza festas tradicionais que valorizam a cultura alimentar da tainha, aumentando a autoestima da comunidade local.

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